Edinei Cantieri, o mecânico das Yamaha RD 350 / Edinei Cantieri, the Yamaha RD 350 mechanic

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Paixão é algo inexplicável. Só quem tem sabe o que é. E o que sobra em Edinei Cantieri é paixão pelas lendárias Yamaha RD 350. Fomos atrás da história do homem que é um dos grandes responsáveis no Brasil por manter acesa a chama da motocicleta que mexeu com a cabeça o coração de tanta gente. O mecânico dedicado única e exclusivamente a consertar, preparar e restaurar apenas uma moto em particular, a RD 350.

Passion is something inexplicable. Only those who feel it know what it means. And a lot of passion is what Edinei Cantieri have for the legendary Yamaha RD 350. We went after the story of the man who is one of the main characters in Brazil on charge for keep burning the flame of the motorcycle that touch the hearts and minds of so many people for so long. He is the mechanic that spend his time and sweat solely and exclusively to repair, prepare and restore one particular motorcycle: the RD 350.


São Paulo, 30 de janeiro de 2020. Um calor abafado castiga a cidade e a ameaça de fortes chuvas, que prometem complicar a vida dos paulistanos como de costume, paira no ar. De trem metropolitano, vamos até a estação final Grajaú, o mais longe que se consegue ir até a imensa zona sul da cidade sem recorrer as linhas de ônibus. Dali até nosso destino final o caminho é relativamente curto. Vamos até o pequeno bairro Parque Cocaia, pertencente ao distrito do Grajaú, fincado exatamente entre os braços das represas Billings e Guarapiranga. Lá, em um típico bairro distante das afetações do centro e das zonas ditas mais “nobres” da cidade, está o homem que vai nos contar suas histórias. Em frente a um pequeno portão no número 6 da rua Tavarede, aguardamos por alguns minutos Edinei Cantieri. Ele está em cima da casa retirando algumas tábuas por conta de represamento de água na laje. Desce e vai nos receber. Do corredor estreito, com um kart de motor dois tempos (um de seus hobbies) encostado na parede, sai “Dinei” que, sorrindo, nos dá as boas vindas.

São Paulo, January 30, 2020. A heat wave punishes the city and the threat of heavy rains, which promise to mess up the lives of its inhabitants, hangs in the air. By metropolitan train we go to the Grajaú final station, as far as you can get to the immense south area of the city without using the bus lines. From there to our final destination the path is relatively short. We go to the small neighborhood called Parque Cocaia, belonging to the Grajaú district, located exactly between the arms of the huge Billings and Guarapiranga dams. There, in a typical neighborhood far from the downtown and from the most “noble” areas of the city, is the man who will tell us his stories. In front of a small gate at number 6 of Tavarede Street we waited for a few minutes for Edinei Cantieri. He is on the roof of the house, removing some boards due to water impoundment. Come down and receive us. From the narrow corridor, with a two-stroke kart leaning against the wall (one of his hobbies), comes out “Dinei” who, smiling, welcomes us.

Na ocasião em que combinamos a data de gravação, Dinei ficou eufórico e ao mesmo tempo apreensivo. Queria a todo custo limpar e arrumar a oficina, literalmente, até o teto antes de chegarmos. Ficou chateado por acreditar que não haveria tempo hábil de pintar o teto. Queria que seu local de trabalho estivesse impecável para nós e para você que está lendo isso. Na manhã da entrevista disse estar com um frio na barriga. Afinal, provavelmente, era a primeira vez que alguém queria legitimamente conhecer seu trabalho e ouvir o que ela tinha a dizer a respeito.

By the time we agreed on the recording date for the interview, Dinei had been both euphoric and apprehensive. He wanted at all costs to clean and fix the shop, literally, up to the ceiling before we arrived. He was a little upset to predict that there would be no time to paint the ceiling. He wanted his workplace to be impeccable for us and for you who are reading this. On the morning of the day of the interview, he said he had butterflies in the stomach. After all, it was probably the first time that someone legitimately wanted to know his work and hear what he had to say about it.

Na casa, onde mora com seu pai e sua irmã, montou com esmero uma oficina mecânica nos fundos dedicada exclusivamente a trabalhar com um objeto que é sua paixão absoluta desde garoto: as lendárias Yamaha RD 350, uma motocicleta que fez parte da história do motociclismo no país por conta de ter formado muitos pilotos e também por ter tirado a vida de muitos motociclistas imprudentes ou despreparados.

In the house where he lives with his father and sister he carefully set up a mechanical workshop in the back dedicated exclusively to working with an object that has been his absolute passion since he was a boy: the legendary Yamaha RD 350, a motorcycle that was part of the history of motorcycling in the country for having trained many pilots and also for taking the lives of many reckless or unprepared riders.

A Yamaha RD 350, para aqueles que ainda não a conhecem, é uma motocicleta lançada nos anos 70. Seu motor de 2 tempos entregava uma cavalaria generosa (para a época) em um conjunto de freios, quadro e suspensões quase que subdimensionados para tal. Aliado a isso, também havia a fama dos motores 2 tempos, típicos de competição, por trabalharem em alto giro e serem explosivos (no bom sentido) e temperamentais. Esse conjunto único rendeu o apelido de viúva negra ao exemplar antigo pelo fato de em algumas ocasiões de tirar a vida ou dar enormes sustos nos seus pilotos. Um modelo mais novo ressurgiu nos anos 80, também com motor 2 tempos, herdando o nome do modelo dos anos 70. Apesar de ser uma outro moto, completamente diferente, tornou-se a herdeira espiritual da RD original e também acabou ganhando o mesmo apelido.

The Yamaha RD 350, for those who do not know it yet, is a motorcycle launched in the 70s. Its 2-stroke engine delivered generous cavalry (for those times) in a set of brakes, frame and suspensions that were almost undersized for this. In addition, there was also the 2-stroke engine’s reputation, typical for racing competition, for working at high rotation and being explosive (in a good sense) and temperamental. This unique ensemble earned the nickname of black widow to the original motorcycle due to the fact that on some occasions they take the life or give huge fright to their riders. A newer model resurfaced in the 80s, also with a 2-stroke engine, inheriting the name of the model from the 70s. Despite being a completely different bike, it became the spiritual heiress of the original RD and also ended up earning the same nickname.

Ali, nas duas peças dos fundos da casa e por todo o pátio, dá pra ver peças e partes de RD 350 em todos os cantos. Incontáveis rodas, escapamentos, carenagens e todo tipo de peças que hoje em dia já são raríssimas de se encontrar. Entre jarras de água e suco gelado, que nos serviu com todo o carinho, Dinei começa a nos contar sua história e por que razão só trabalha com uma única motocicleta. A cada pergunta, ou pela simples menção da moto, dá pra perceber que os olhos do homem brilham e provam que ele realmente é apaixonado pela moto e pelo que faz.

There, in the two rooms at the back of the house and along all the courtyard, you can see pieces and parts of RD 350 in every corner. Countless wheels, exhausts, fairings and all kinds of parts that today are very rare to find. Between jars of water and cold juice, which he served us with all kindness, Dinei begins to tell us his story and why he only works with a single motorcycle. With each question, or the mere mention of the bike, you can see the sparks in his eyes proving that he really is passionate about the bike and what he does.

Antes de iniciarmos a gravação Dinei posiciona meticulosamente suas duas câmeras para gravar também. Quer guardar o registro e também quer ajudar com suas imagens para nossa gravação.

Before we started recording, Dinei meticulously positioned his two cameras to record as well. He wants to keep the record and also wants to help our work with his images.

Como aconteceu com muitos motociclistas, a RD350 foi paixão a primeira vista para Dinei. Conseguiu uma e começou a mexer. Nesse meio tempo, muitos amigos ou conhecidos que tinham a mesma moto passaram e pedir uma mão para ele. Assim que percebeu que poderia fazer daquilo um meio de vida, começou a comprar aos poucos o ferramental que precisava para montar sua própria oficina. Assim que o fez, começou sozinho e aprendeu muito ao longo do tempo com erros e acertos. Precisou de um ajudante e hoje trabalha com Rafael a quem chama o tempo inteiro de “meu menino”. Mas trabalha no seu tempo, cuidando das motos como se fossem suas com todo capricho e atenção que elas merecem. Por conta disso, seu nome se tornou conhecido no mundo das 2 tempos pelo Brasil afora. É lugar comum receber motos de vários estados do Brasil ou para preparar ou restaurar. Incrivelmente, Dinei não é apegado ou alguém que usa freneticamente as redes sociais. Tem um perfil no Facebook e atende muito por Whatsapp. E para por aí. O que tornou Dinei conhecido foi a propaganda boca a boca que de fato parece ser o grande trunfo de sua oficina. A maioria de seus clientes o são por indicação. Já virou lugar comum ouvir por aí, ao questionar onde levar uma RD 350, “leva no Dinei”.

As with many motorcyclists, the RD350 was passion at first sight for Dinei. He got one and started working on it. In the meantime, many friends or acquaintances who had the same bike started to passed by and to ask for a help hand for him. As soon as he realized he could make a living out of it, he started buying the tools he needed to set up his own workshop. As soon as he did, he started alone and learned a lot over time from mistakes and successes. Today he works with Rafael whom he calls “my boy” all the time. But he works in his pace, taking care of the bikes as if they were his own with all the care and attention they deserve. Because of this, his name became well knowed in the world of 2 stroke engines in Brazil. It is commonplace for him to receive motorcycles from various states in the country for prepare or restore. Incredibly Dinei is not attached or someone who frantically uses social media. Has a Facebook profile and uses Whatsapp a lot. And that’s it. What made Dinei known was word of mouth, which in fact seems to be the great asset of his workshop. Most of your customers are by referral. It has become commonplace to listen around when questioning where to take an RD 350 for repair, “Take it to Dinei”.

E para ele, isso basta. Comenta que muitos amigos o instigam a começar a trabalhar com outras motos, até mesmo 4 tempos, por que “o que ele vai fazer quando as RDs 350 acabarem”? Como é que ele vai ficar “rico” trabalhando com apenas uma moto “velha”? A questão é que ele não quer ficar rico. Por que mais motos e mais trabalho se tornariam um cenário no qual muitas coisas iriam sair do seu rigoroso controle de qualidade e dedicação e isso ele não quer. E, se depender dele, elas não vão acabar. Dinei só quer fazer seu trabalho meticuloso no seu ritmo e ter o mínimo de reconhecimento por isso. Até por que ele é justamente um dos responsáveis por manter a máquina viva para tantos admiradores, proprietários e entusiastas. A história de Dinei com as RDs é a história de um típico brasileiro apaixonado pelas duas rodas. Uma verdadeira lição de paixão, dedicação e humildade.

Confira abaixo o bate papo que tivemos com ele contando toda sua história, a forma como trabalha, o que almeja e também com dicas valiosas para quem tem ou quer ter uma das motocicletas mais queridas no Brasil.

And for him, that’s enough. He comments that many friends instigate him to start working with other bikes, even 4 stroke ones, because “what will he do when the RD 350 vanishes”? How is he going to get “rich” working with just an “old” motorcycle? The point is, he doesn’t want to get rich. Because more bikes and more work would become a scenario in which many things would come out of his strict quality control and dedication and that is precisely what he does not want. And if it depends from him they will not end. Dinei just wants to do his meticulous work at his pace and have a minimum of recognition for that. Even because he is precisely one of those responsible for keeping the machine alive for so many admirers, owners and enthusiasts. Dinei’s story with the RDs is the story of a typical Brazilian in love with two wheels. A real lesson in passion, dedication and humility.

Check below the chat we had with him telling his whole story, the way he works, what he wants and also with valuable tips for those who have or want to have one of the most beloved motorcycles in Brazil.


Dinei Preparações

Rua Tavarede, 06
São Paulo – SP

Facebook: facebook.com/DineiPreparacaoEspecializadaEmRd350/

Whatsapp: 11 9 47443 2454


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