Honda CB450DX Cafe Racer

Juliano Tokuda cresceu vendo seu pai manter com as próprias mãos um caminhão que era um dos sustentos da família. Ajudava e aprendia com seu pai. Ficou fascinado pelos carros da franquia Velozes e Furiosos e, depois de mexer com carros e por influência de um amigo, decidiu que iria construir uma moto cafe racer também com as próprias mãos. O resultado, sobre uma clássica Honda CB450DX, ficou incrível. Confira a entrevista com o construtor!

Como as motos entraram na sua vida?

Acho que antes de falar sobre minha relação com as motos seria interessante contar um pouco sobre minha história com veículos. Meu pai é caminhoneiro. Dirige o mesmo caminhão há 35 anos e é o único dono de um Mercedes Benz M1113 1982. Eu cresci vendo ele fazer toda a manutenção do caminhão em casa. Nessas ocasiões, sempre tentava ficar próximo, me divertia muito ‘trabalhando’ com ele. Daí acabou nascendo minha paixão por mecânica. Eu não ligava muito para carros até ver o primeiro filme da série Velozes e Furiosos. Lembro que eu e meus amigos passávamos horas falando sobre os carros do filme e meu sonho passou a ser um daqueles carros cheios de neon e adesivos. E dado todo esse contexto, surgiu minha paixão por personalização.

Felizmente não cheguei a colocar neon em nenhum de meus carros, mas, desde o primeiro, sempre os personalizei. Meu primeiro carro foi uma saveiro e, buscando informações sobre ele, encontrei muita coisa no fórum Saveiro Clube onde acabei fazendo muitas amizades. Uma delas foi Vinicius Gomes Gonçalves, que vivia na mesma região e, por isso, nosso contato sempre foi maior. Trocávamos informações sobre as modificações que fazíamos em nossos carros e isso fez com que um influenciasse o outro. Em 2015 ele comprou uma CB 500 que iria transformar em uma cafe racer. Apesar de gostar de moto, eu não entendia nada. Meu único contato com o mundo de duas rodas havia sido uma Honda Biz que consegui zerada no início de 2014. Fomos viajar em outubro de 2015 e no roteiro estava o Salão Duas Rodas. Lá eu vi muitas cafe racers e, depois de muita insistência do Vini, acabei decidindo que também montaria uma.

Como surgiu a ideia de customizar uma moto?

Como disse antes, meu interesse por motos surgiu junto com a vontade de customizar. Eu já tinha a Biz, mas a encarava apenas como meio de transporte. Quando decidi montar uma cafe racer passei a pesquisar referências. No início eu não entendia nada de mecânica de moto, mas como tinha experiência com mecânica e personalização de carros, achei que daria conta do recado. O primeiro passo foi escolher qual moto utilizaria como base. Por ser uma dos modelos mais utilizados nos projetos cafe, vi na CB minha melhor opção. Escolhido o modelo, iniciei a busca pela moto ideal. O objetivo principal era conseguir uma CB com motor bom. Depois de 3 meses procurando encontrei uma nas condições ideais. Como demorei um pouco para encontrar a moto, nesse meio tempo importei algumas peças e já estava com algumas delas na mão. Eu não tinha um projeto completamente definido. Minha única certeza é que eu queria fazer sozinho e em casa tudo que fosse possível. Só terceirizaria os serviços que não tivesse conhecimento ou ferramentas. Acompanhando o grupo Cafe Racer Brasil no Facebook, percebi que alguns projetos demoravam demais para ficarem prontos e muitos desistiam. Eu não queria isso e, um dos diferenciais com meu projeto era que, enquanto customizava a moto, eu continuava rodando com ela. Era comum eu rodar com a moto faltando algo, com peças no metal cru e sem acabamento. O máximo de tempo que fiquei com a moto sem rodar foi quando a desmontei inteira para revisar o motor e fazer toda a pintura. No fim do processo todo a moto ficou parecendo recém-saída de uma concessionária já que todas as peças foram restauradas. Essa fase de construção foi muito divertida. Tanto que se me perguntassem se eu gostei mais de customizar ou rodar com a moto eu não saberia responder. Esse gosto pela customização e a coisa toda de estar sempre mexendo faz com que a moto nunca pareça definitivamente pronta pois sempre dá para alterar ou melhorar alguma coisa.

A moto em processo de construção e reforma

Conte pra gente as modificações que você fez na sua moto. O que trocou, o que serrou, o que deixou de fazer ou o que acabou mudando no meio do caminho.

Bom, eu pretendia fazer o máximo possível em casa e por conta própria. Levando isso em consideração decidi que nesse primeiro projeto não faria alteração no chassi. O único corte realizado foi a retirada da alça onde o banco original era fixado.

A característica mais marcante das cafe racers é a linha reta que marca a base do tanque, banco e rabeta. A CB tem uma leve caída na traseira, o que impede alcançar esse resultado sem fazer alteração no chassi. Vi alguns projetos em que adaptaram algum suporte para elevar o banco e conseguir essa linha reta, mas nenhum das soluções empregadas me agradou. Já conformado com esse ‘defeito’ no projeto tentei suavizar o máximo possível essa caída na traseira.

O tanque original foi substituído por um de Honda CG Today 1983 que serviu perfeitamente, mas precisei diminuir os suportes dianteiros, pois o quadro da CB é mais largo que o da Today e desloquei a torneira alguns centímetros para trás pois, na posição original, pegaria na tampa do cabeçote. Com isso aproveitei para trocar o canote por um de CB que tem diâmetro maior que o da CG. Além disso, cortei as abas onde eram fixadas as tampas laterais da Today para conseguir uma linha reta na base do tanque.

O próximo item, a rabeta, construí  utilizando um tanque de Turuna. Mas achei que ficou muito curta e optei por fazer uma nova. Eu havia ganho um tanque velho de CG bolinha e vi que ele tinha um formato que talvez se adequasse ao que eu buscava. E assim nasceu a rabeta definitiva cuja ideia era ser também um porta objetos. A parte superior é formada por dois pedaços do tanque da CG. Já a base, frente e encosto do banco foram feitos com chapas de aço.

Para o banco fiz um molde em papelão e depois transferi para uma chapa de aço. A espuma utilizada foi retirada de um banco de CG e a forração feita com courvin.

A lanterna completa foi comprada no Aliexpress, mas acabei utilizando apenas a lente de acrílico. O suporte foi construído do zero de modo que se adequasse a traseira da moto. Em todos os projetos que vi com semi guidão, ele era fixado por baixo da mesa, fazendo com o que piloto ficasse bastante inclinado. Eu queria colocar o guidão por cima da mesa, mas ele não ficava em uma posição legal. A solução encontrada foi inverter a posição dos risers e desgastar um pedaço da mesa. Com isso consegui chegar em um resultado que agradou tanto no visual quanto no conforto.

Os retrovisores e setas também vieram do Aliexpress. As manoplas foram feitas por mim utilizando manoplas de bicicleta, fita dupla face e retalhos de couro pra chegar no resultado atual.

O farol é de uma CG 150 que foi desmontado e instalado um projetor que faz a função baixa e alta com a mesma lâmpada. O para lama dianteiro também é uma peça única. Comprei um para lama de CB 400 e cortei ao meio. A fixação é diferente na CB 400 e 450 e por isso precisei fazer um suporte novo a partir de uma chapa de aço.

A bateria e componentes elétricos foram alocados para uma caixa de metal embaixo do banco. A última modificação estética foi a instalação de uma carenagem com bolha. Comprei a bolha no Aliexpress como sendo para uma Harley Sporster. Para instalar precisei fazer uma estrutura utilizando chapa de aço, suporte de farol original e pregos… isso mesmo, pregos…

Na parte mecânica o escapamento original foi trocado por um 2×1 com flauta removível, o CDI foi trocado por um digital e bobina substituída por uma de Fiat, cabos de vela Bosch de Golf 2.0 e velas NGK Iridium.

Como é praxe nas cafe racers, a caixa do filtro de ar foi removida e foram instalados filtros de ar esportivos. A parte de rodas, freios e suspensão permanece original. Os pneus utilizados são Rinaldi R34 120/80 na traseira e 90/90 na dianteira. Mas esse setup vai ser modificado e será trocado por pneus Metzeler Lasertec, 120/80 na traseira e 100/90 na dianteira.

Depois de passar por todo o processo de customizar uma moto, o que você diria pra quem quer modificar uma moto? O que você aprendeu e gostaria de dar como dica pra essas pessoas?

Minha experiência com a customização da CB foi super positiva. Depois que customizei a CB passei a frequentar diversos encontros de motociclistas e, em todo lugar, a CB atrai muitos olhares. Meus amigos brincam que não tem graça estacionar suas motos ao lado da CB, pois parece que elas ficam invisíveis. Se você sonha em ter uma moto customizada, vá em frente e lute por isso. Cada um de nós é único e por que deveríamos nos contentar com motos padronizadas? A vida é muito curta para passarmos nosso tempo dirigindo veículos chatos. Acredito que, assim como as roupas, nossas motos mostram muito de nossa personalidade, elas são uma extensão do que somos. Pode ser que existam alguns problemas no decorrer do processo de construção, mas não desanime, eu garanto que no fim das contas tudo vai valer a pena. Não importa se você vai executar o projeto em casa ou vai contratar uma oficina. Quando decidir customizar, pesquise bastante. Você vai encontrar muito material explicando como realizar determinados serviços ou, caso decida contratar uma oficina, vai encontrar referências sobre sua idoneidade. Algumas pessoas pensam que moto customizada não é viável para o dia a dia, mas isso é uma grande besteira. Em pouco mais de um ano com a CB eu já rodei mais de 10.000 km, tendo, inclusive, viajado para a Serra do Rio Rastro em Santa Cantarina. Foram 6 dias de estrada e 2500 km rodados com muito estilo e sem nenhum problema. Quem quiser conhecer um pouco mais sobre a moto, pode acessar meu canal no Youtube ou no Instagram. Sempre faço o possível para responder os comentários e mensagens que recebo.

A moto de Juliano, ao contrário do reservado, simpático e tímido dono, chama a atenção por onde passa. E é justamente ela que tem, de forma muito bacana, ajudado Juliano a fazer novos amigos e deixar de lado a timidez. A gente costuma dizer que motos são máquinas de fazer amizade e, de fato, tem funcionado muito bem com  Juliano. Sua moto também participou do Concurso Moto Customizada do Ano Motocultura e foi uma das concorrentes na segunda edição do evento, eleita pelo jurí de especialistas. Além disso, a cafe de Juliano é uma prova de que com persistência, vontade de aprender e foco, é possível construir sua moto sem grandes surpresas ou gastos exorbitantes.

Quadro sem alterações e um ótimo resultado

 

 

 

Bolha de Harley

 

Detalhe: logo vintage da Honda no grafismo

 

Rabeta a partir de um tanque de CG bolinha
Para lama cortado e adaptado da CB400
Belíssimo cockpit
Motor completamente reformado

Confira o vídeo com todos os detalhes da moto:

Fotos: André Santos Fotografia