Suzuki Intruder 125 cafe racer – projetos para se inspirar

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Chegando tardiamente em terras brasileiras em 2002, a Suzukinha 125, disponível desde os anos 80 no Japão, desembarcou tímida e recebendo alguns olhares de estranheza por aqui. Isso por que seu projeto já era bastante antiquado frente as motocicletas de mesma cilindrada de outras fabricantes. Mas mesmo assim ela tinha bons argumentos e precedentes em sua defesa. Um deles era ser a irmã menor da Intruder 250 que havia feito um relativo sucesso antes dela nos anos 90. Mas o que mais contou pontos a favor da pequena custom que tentava imitar motos  maiores da Suzuki era o preço, a robustez comprovada da mecânica e o fato de, mesmo que meio feinha, ser o único modelo de baixa cilindrada que não tinha um design pasteurizado das pequenas street da época que seriam, teoricamente, suas concorrentes. Além disso, o design pouco atrativo e o menor volume de exemplares rodando nas ruas faziam com que o modelo não chamasse tanta a atenção dos amigos do alheio.

Intruder 125 da Suzuki: uma custom em miniatura para andar ouvindo Born To Be Wild pelas curvas e retas das grandes metrópoles.
Intruder 250: irmã com 125cc a mais que acabou chegando antes por aqui.

Por conta de tudo isso, mesmo depois de descontinuada, a menorzinha da Suzuki ainda faz muito sucesso por aqui onde um exemplar usado varia entre R$ 3.000* até R$ 10.000* (valor de um modelo 2002, acreditem, 0 Km em Minas Gerais). Mas a média de preço fica em torno de R$ 4.500*. Em um país onde a economia é sempre um incógnita, um valor razoável e que cabe no bolso, com maior ou menor dificuldade, da maioria dos brasileiros. (* valores de dezembro de 2019)

A longevidade do modelo também é mérito da onda tardia retrô que chegou por aqui e ainda tem uma certa força e vigor. Se as linhas antiquadas e esquisitas eram um entrave na ocasião de sua chegada no mercado, hoje elas são uma espécie de atrativo. E justamente por isso, aliado ao ótimo valor de compra, a Intruder 125 ganhou uma espécie de selo popular de moto de entrada oficial pra customização, principalmente na linha cafe racer.

Mas justamente aí entram alguns detalhes importantes. A Intruder 125 nasceu como uma mistura de moto para uso urbano, por conta do pequeno motor, mas com uma pegada declaradamente custom no sentido estreito da palavra. O modelo, em termos de design e estruturalmente, intenta ser uma mini custom. Inclusive, no mercado brasileiro, levou o nome Intruder, para deixar claro que fazia parte da família das custom maiores da Suzuki como as VL 1500, VS 1400 e VS 800 (em outros mercados as suzukis de entrada tem o nome de GN 125 e GN 250). E todas as características de uma custom estão lá: tanque redondo e inclinado para cima, rebaixo no subframe para um banco mais largo e mais baixo, suspensão dianteira com curso mais longo, ângulo de cáster maior, guidão em uma posição mais alta e bem mais aberto e cromados onde for possível.

As linhas originais do quadro, típicas de uma custom (em vermelho), são a maior dificuldade para se obter uma linha estrutural reta (em verde), característica estética marcante das cafe racers surgidas nos 50 e 60.

Tecnicamente, a Intruder 125, por conta de suas características de projeto, é uma motinho perfeita para um projeto de customização de uma pequena chopper ou bobber. Mas é raríssimo ver algo nesse sentido por aqui. Contrariando todas as expectativas, o que mais se vê é projeto de cafe racer. E é perfeitamente compreensível já que é uma motocicleta comprovadamente confiável e, principalmente, barata. E vamos combinar que a esmagadora maioria dos brasileiros não tem condições de ficar customizando e mantendo motão ostentação.

Então, vamos ser um pouquinho… polêmicos : )

Dá pra fazer um projeto cafe racer legal em uma moto base que não é exatamente a melhor escolha já que tem uma pegada que passa um pouco longe do que seria uma moto base ideal para uma cafe? Dá. Mas pra isso é preciso entender um pouco melhor o que era exatamente uma cafe racer na ocasião do seu surgimento na Inglaterra nos anos 50 e 60. Aqui nesse ponto vai ter gente (mala) incitando a discussão boba de que o estilo não é só estético e que blá, blá, blá, ZZZzzzz ronc. Mas vamos deixar eles gritando para as nuvens e continuemos.

As cafes, quando surgiram, eram basicamente motos inglesas da época modificadas e aliviadas de peso para, sim, imitarem esteticamente, e também em termos de performance na medida do possível, as motos de corrida daqueles tempos. Ou seja, tentar construir uma moto de GP de rua. E as motos de GP do final dos 50 e inicio dos 60 tinham sim características estruturais e estéticas muito bem definidas. Características que eram basicamente: tanque de combustível alongado, quadro e subframe retos deixando banco e tanque na mesma linha, semi guidões baixos, pedaleiras recuadas, banco monoposto, alívio de peso e motor preparado.

Triton 1960: uma legítima cafe racer com o visual almejado pelos “cafezeiros”
AJS 7R 350cc: uma das inspirações direto das pistas de competição
MV Augusta: mais inspiração das pistas na época
Suzuki RK67: outra inspiração da pistas com motor dois tempos e 14 marchas! Aqui dá pra ver bem a questão do tanque alongado e do assento bastante recuado.  Veja mais sobre a moto aqui.
Honda RC149: um canhão de 125cc de 1966 que passava dos 200 Km/h. Outra inspiração estética para os corredores das ruas de Londres.

Se fôssemos aplicar esse conceito atualmente, então provavelmente os “cafezeiros” de hoje em dia são os jaspions com suas super esportivas que nada mais são do que motocicletas que emulam motocicletas de competição atuais. Ou mesmo a gurizada que depena suas CGzinhas pra tirar racha de rua.

Seriam os “speedeiros” os “cafezeiros” de hoje?
Seriam as pequenas depenadas e preparadas da rapaziada as cafe racers de hoje?

Porém, vamos partir do princípio de que a ideia é fazer uma cafezinha esteticamente coerente com as cafes inglesas originais. Pra isso precisamos entender duas coisas: como eram as motos de GP da época (a inspiração dos rockers originais e que já vimos ali em cima) e como eram justamente as cafes da época.

As cafes da rapaziada pelas ruas de Londres eram Nortons, BSAs, Triumphs e algumas híbridas que utilizavam quadro de uma moto e motor de outra, como as Triton. A ideia era encaixar bem o piloto na moto para duas coisas: velocidade e controle para trajetos de curta distância e, como já sabemos, imitar as motocicletas de corrida da época priorizando performance em detrimento do controle.

BSA 1968: outra base para cafe racer puro sangue

Pois voltamos a nossa querida Intruder 125. Dentro dessa história toda, percebemos que estruturalmente a “Trudinha” é exatamente o contrário do que se espera de uma boa base para uma cafe, estrutural e esteticamente falando. Mas a questão é, com conhecimento e um trabalho cuidadoso, dá pra fazer.

E por aqui enfrentamos um curioso fenômeno quando o assunto é customização. O brasileiro, em parte, não tem muita motivação e vontade para pesquisar, estudar e entender cada estilo, sua história, características etc. Também não temos uma formação e ligação muito forte com arte, estética, cores, harmonia, equilíbrio etc. E, com isso, criou-se um tabu bem chato e contraproducente. Ninguém pode criticar nada (mesmo que de forma saudável) que sempre tem a horda de plantão que vai se revoltar dizendo que alguém está cag… regra e que customização é qualquer coisa, que cada um faz o que quiser e que se o dono da moto gosta, então tá lindo e tá tudo certo. Além do fato de que são raríssimas as pessoas que entendem as características chave de cada estilo e a maioria acaba confundindo absolutamente tudo. E gente, na boa, vamos combinar, isso é o maior câncer e entrave da customização no Brasil. Dessa preguiça de entender os estilos aliada ao tudo vale nascem projetos monstruosos todos os dias. Projetos sem harmonia ou equilíbrio algum que chegam a doer nos olhos de quem observa e que acabam passando como bons projetos por que a galera em geral também não tem repertório e conhecimento suficiente pra entender o que é um bom projeto. E isso tudo é péssimo pro mercado de customização brasileiro. As vezes, muita gente usa essa coisa de vale tudo, de “roots” e “customização é qualquer coisa” como uma muleta sem vergonha pra trabalho de péssimo gosto e qualidade. E isso é ruim, muito ruim pra todo mundo.

E  o que  mais vemos hoje em dia, por conta dessa preguiça e permissividade geral, é que qualquer coisa é cafe racer. Trocou o guidão? É cafe racer. Mudou o banco? É cafe racer. Trocou os piscas? É cafe racer. Calma lá gente. Não é bem assim. E nessa dança esquizofrênica embalada por uma música dissonante difícil de engolir a pobre Intruder 125 é justamente quem mais sofre nas mãos e nas serras de corte por aí.

Posto isso, separamos alguns projetos super interessantes e coerentes utilizando como base justamente as Intruderzinhas. Um detalhe importante: é quase impossível fazer um projeto esteticamente adequado na suzukinha sem modificar o sub frame e sem diminuir drasticamente o curso da suspensão dianteira. Dá pra contar nos dedos de uma mão os heróis que conseguiram fazer um projeto legal sem modificar o quadro da motoca. E sim, a gente sabe, segundo a situação atual da legislação não dá pra mexer no quadro : /. Mas, por conta disso, digamos que há um grau maior de dificuldade no desafio : ) Nem todos os projetos são exatamente cafe racers mas são um bom exemplo de que dá pra driblar as dificuldades estruturais da moto original numa boa.

Suzuki Intruder 125 Cafe Racer

By DuongDoan’s Design

Talvez o melhor exemplo de uma cafe racer fiel as suas origens. Perceba a linha reta entre tanque e banco, resultado do completo retrabalho do subframe. Outro detalhe que faz toda a diferença: a suspensão dianteira com curso muito, mas muito mais curto que o das suspensões originais. Ou os tubos e molas originais foram cortados ou são tubos de uma outra moto. Perceba que para se obter um tanque bem horizontal, provavelmente houve um trabalho de subir o fundo do tanque para que ele se encaixasse mais baixo no quadro.

Veja mais fotos e detalhes do projeto

Intruder 125 Cafe Racer

By Solo Fierros Garage

Aqui o guidão inteiro em cima da mesa foi mantido assim como a suspensão dianteira manteve boa parte de seu longo curso. Mas mesmo assim, um projeto interessante que tem uma cara mais de street tracker do que necessariamente uma cafe racer.

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Suzuki Intruder 125

By Benta Handmade

Aqui temos dois projetos bem legais da brasileira Benta. Ambos não são exatamente uma cafe e pendem mais para um estilo brat. Mas mesmo assim dá pra perceber que houve um trabalho no chassi das motocas para se obter linhas mais harmoniosas.

Intruder 125 Rabugentus

By Garagem Rabugentus

Projeto brazuca bem bacana onde dá pra perceber que teve um baita trabalho no subframe da motinho. Mas aqui também se optou por manter o guidão mais alto em um frente mais ousada e  moderna (destaque para o farol quadrado)

Veja mais fotos e detalhes do projeto

Street Tracker Suzuki Indruder 125

Aqui um projeto bem interessante que não alterou o quadro da motoca. A solução foi resolver a questão das linhas no banco da moto. O rebaixo do quadro foi preenchido com o assento do piloto e a linha reta foi obtida rebaixando a parte do banco do garupa (que deve sofrer um pouquinho com  a falta de espuma). Também não é uma cafe mas o projeto foi bem resolvido sem grandes alterações estruturais.

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Suzuki Intruder 125 Cafe Racer

By DuongDoan’s Design

Outro projetinho da oficina vietnamita da primeira moto da lista. Receita básica e simples dando o look desejado para uma cafe com a linha reta entre banco e tanque.

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Suzuki Intruder 250 cafe racer

By Dream Wheels Heritage

Mais um exemplo de um ótimo trabalho estrutural e harmonioso. Um dos poucos exemplares das pequenas Intruders que foi parar no prestigiado site Bike Exif.

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Suzuki Intruder 400 Cafe Racer

By Tattoo Custom Motorcycles

Pra fechar a lista, um projeto bem ousado em uma base parecida mas um pouco incomum para nós. Trata-se da Suzuki GN 400 que nunca deu as caras por aqui. Apesar de maior, a moto original tem as mesmas características de suas irmãs menores em termos de estética. O curioso é que, aparentemente, o quadro não sofreu modificações e a questão das linhas foi resolvida no tanque e no banco da moto.

Veja mais fotos e detalhes

Que tal os projetos? Conhece alguma Intruderzinha modificada que tenha ficado super bacana? Conte pra gente nos comentários.

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