Royal Enfield Concept KX V-Twin

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Em um mercado e momento atual onde pouquíssimos se arriscam, sempre vem a boa surpresa de onde menos se espera. A Royal Enfield, conhecida por fabricar motocicletas da forma (e na sua forma) mais tradicional possível, apresenta um protótipo ousadíssimo em termos de design, principalmente levando em conta a tradição da marca. A moto conceito KX com um motor V de 838cc, apresentada na feira italiana EICMA (Esposizione Internazionale Ciclo Motociclo e Accessori), mostra uma ousadia e capricho de projeto que parece saído de um filme da Marvel. Nota: a motocicleta lembra um pouco, pelas linhas gerais e alguns detalhes, a Harley Livewire pilotada pela personagem Viúva Negra no primeiro filme dos Vingadores.

Royal Enfield Concept KX

Como se não bastasse, a inspiração veio de uma Royal de 1938, a KX de 1140cc, do período entre guerras, considerada uma moto de luxo na época. E o mais incrível é que o re-design manteve brilhantemente a essência da avó ao mesmo tempo em que se vale de linhas bastante futuristas, fazendo parecer com que algum viajante do tempo foi de Royal até o ano 2050, deixou a velha KX em uma oficina de algum customizador de Alpha Centauri pra uma repaginada e voltou com ela para o ano de 2018. A moto é um exemplar interessantíssimo de design retro futurista. Pessoalmente acho que a marca deu um banho nas concorrentes em se tratando da nova onda de “modern classic”. Foi um passo além.

A Royal de 1938: inspiração do passado

O projeto foi concebido em seis meses em um esforço conjunto das equipes de design da marca no Reino Unido e na Índia. Dois protótipos foram modelados em argila, um um pouco mais conservador e outro mais futurista. A moto conceito acabou pegando um pouco dos dois concepts para sua forma final. Mas vale lembrar que, infelizmente, a moto foi apresentada categoricamente como conceito e a ideia de produção em massa está descartada. Mas… há esperança. A Harley Live Wire tinha o mesmo discurso em 2014 e em janeiro de 2018 anunciou o início da produção em 2019.

É louvável e digno de aplauso uma marca que nitidamente orgulha-se e tenta preservar o passado fazer esse movimento de olhar para o futuro. Coisa que muitas marcas deitadas em berço esplêndido têm calafrios só de pensar. Vale lembrar que a Harley fez um movimento parecido e tão ousado quanto neste ano, com seus novos lançamentos. Os puristas e tradicionalistas de plantão berraram, fizeram birra e espernearam. Provavelmente os puristas da Royal vão ter a mesmíssima reação. Mas vamos combinar que quem constrói o futuro não são os puristas e tradicionalistas. São aqueles que olham pra frente.

Passado e futuro juntos

Dentro desse contexto temos de lembrar que o mercado de motocicletas sofre há muito tempo de um mesmo mal. Depois de décadas de competição acirrada entre as marcas, especialmente nos anos 70 e 80, na qual muitas novidades definiam tendências e consolidavam novas tecnologias, a mesmice tomou conta do universo das duas rodas assim como aconteceu, também, com os automóveis. De qualquer forma, essa “mesmice” é natural e fruto da desaceleração da inovação no setor, consequência de alguns fatores racionais.

A tecnologia hoje avança de forma vertiginosa e nossa capacidade de processar tanta informação é limitada. Portanto, nossa limitação faz com que a inovação ande a passos mais lentos do que deveria e poderia andar. Inovação e pesquisa custam dinheiro e não significam ganho a curto e médio prazo. O mercado de motocicletas mudou drasticamente de uns 20 anos para cá e muitos mercados enfrentaram, ou enfrentam, crise econômica que significa retração em vendas, principalmente em lugares onde motocicleta é mais vista como lazer do que como uma opção de transporte racional e barata. A complexidade da questão está aqui no Motocultura onde especulamos um pouco sobre o assunto na matéria  “O futuro das motocicletas”.

Os fabricantes têm se segurado como podem. Uma das saídas é o máximo de compartilhamento de componentes, barateando custos, para modelos “diferentes” que na verdade são praticamente a mesma moto com uma ou outra coisa mudando aqui e ali. E aí vem as famigeradas off-road que de off-road não tem nada ou a mesmíssima moto e motor em duzentas versões diferentes cheias de siglas enigmáticas. Mas sempre tem alguém que decide se arriscar e pensar em algo novo. E todo mundo ganha.

A KX V-Twin

Em linhas gerais a moto lembra, de longe, duas companheiras de duas rodas, a Live Wire (como já dissemos) e a Indian Scout. Mas para por aí. O trabalho de esconder a suspensão traseira e a dianteira, que é de braço oscilante, é primoroso.

De perfil: mal dá pra perceber as molas da traseira e os braços da dianteira.

As coberturas da suspensão dianteira integram-se perfeitamente com o nicho do moderno farol dianteiro. A balança traseira, lindíssima, totalmente integrada com o amortecedor, ainda por cima é mono braço. É uma espécie de bobber do futuro cheia de nove horas.

Farol e lanterna traseira tem um mesmo desenho (capricho e atenção no detalhe) e que, se você reparar, tem dois desenhos contrapostos verticalmente que lembram o “E” do logo tradicional da Royal. A traseira lembra uma rabo duro, como na inspiração de 1938, mas assim como o amortecedor está muito bem escondido, o banco não tem nenhuma molinha. Destaque para o uso de um metal pouco convencional, o cobre, em alguns lugares, como no selo “BRAAPP” no banco. O painel é digital mas parece ser, no protótipo, fake (afinal é um protótipo né?). Outro destaque é o desenho do tanque baixo, alongado e com ângulo nas bordas.

Fotos

Motor: um V-Twin de 838cc. Atenção aos cabeçotes imitando a vovó inspiração

Repare na luz do farol: são dois “E” do logo clássico da Royal sem a haste central e contrapostos verticalmente
Painel digital: será que esse funciona ou é só pra mostrar como é?
Mola da suspensão traseira completamente integrada a estrutura da balança
braaaaaaaaaaap
Um trabalho bem legal no tanque. Mesmo com novos ângulos, continua lembrando o perfil do tanque da moto original (compare nas duas fotos abaixo)
A versão de 1938
A versão de 2050, digo, 2018

Balança traseira: uma aula de design a parte. Como é mono braço, disco e coroa estão juntos do lado esquerdo.

Fotos do processo de criação

Não fazemos a mínima ideia de como a moto anda ou se ela anda. Vimos as notícias pela internet afora e recebemos um press release. Vale lembrar que aqui em Motocultura nossa proposta é conteúdo analítico, opinativo, crítico, longo, detalhado, fugindo do lugar comum e da mesmice que também assola o jornalismo automotivo e de duas rodas. E publicar press release é uma coisa que fugimos como o diabo foge da cruz e este editor, pessoalmente, acha que publicar press release é o fundo do poço. Ainda mais se for copy paste (tentamos fazer com que este não fosse um copy paste descarado e preguiçoso). Mas… a gente realmente achou a moto muito legal e diferente e achamos que seria legal dividir a novidade com os leitores por mais que o material que temos sobre a moto é o mesmo material que mais um monte de gente já viu, já leu e recebeu.  Encerradas as formalidades e as devidas explicações nos diga você. O que achou da motoca? Teria uma?


2 thoughts on “Royal Enfield Concept KX V-Twin

  1. Anderson Martini Marcondes

    Si eu compraria, mas espero espero que veja o plano de revisões com ,um km adequada pois as que estão no mercado e de 3 mil km, uma moto onde se destaca que ela topa tudo achei pouco, na verdade pagamos o valor pelo designer.

  2. Allan Fernando Girotto Memória

    Essa matéria me fez sentir que eu não estou errado: os caras acertaram mesmo EM CHEIO nessa motoca!
    Abusadamente bem concebida e olhando para 2050! Hahahahah

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